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As atividades espeleológicas em campo, neste final de 2009, levaram a Sociedade Espeleológica Potiguar a uma das mais fantásticas expedições dos últimos anos. Em uma saída a região oeste do Rio Grande do Norte, foram mapeadas e documentadas importantes cavidades naturais subterrâneas da região.
A meta central da viagem foi fixada no mapeamento de duas valiosas cavidades: a Gruta Rainha e a Dolina do Xavier. Ambas as feições estão localizadas no município de Felipe Guerra, em território potiguar, inseridas em rochas calcárias do Cretáceo. As semelhanças, entretanto, resumem-se em poucas linhas, pois enquanto a primeira é constituída por um corpo cavernícola de desenvolvimento meandrante e alongado, a segunda é uma imensa dolina de abatimento, quiçá, uma das maiores ou mais representativas já vistas no estado. A Rainha é uma caverna de condições severas, sendo sua atmosfera interior bastante agressiva ao ser humano, podendo ser considerada uma das grutas mais perigosas do Rio Grande do Norte. A umidade relativa do ar é bem alta e a sensação que invade os visitantes é de sufocamento, à medida que se penetra por seus condutos. O teto ora mostra-se baixo, ora relativamente alto, mas a caverna, de um modo geral, não apresenta amplos salões, o que força, o visitante a andar agachado por dezenas de metros. Foge dessa regra, somente, o trecho final, que é consideravelmente volumoso. A Dolina do Xavier, de outra sorte, é uma feição cavernícola muito aberta e arejada. Em seu interior há, inclusive, um pequeno bosque, com árvores que cresceram protegidas do homem devido à inacessibilidade do local. Na verdade, para se chegar ao fundo dela, é preciso vencer um desnível de aproximadamente dezoito metros, o que, praticamente, impossibilita a retirada da madeira nativa. Existe, ainda, outra dificuldade perceptível ainda de longe: dezenas de colméias estão abrigadas nos paredões do fosso de entrada da caverna. Portanto, cada cavidade ao seu modo, demonstra dificuldades capazes de inibir a maioria dos visitantes, mas que, porém, foram decisivas à conservação do ambiente ao longo dos anos.
As atividades do grupo iniciaram-se em 19 de dezembro com o mapeamento da Rainha. Essa caverna já havia sido topografada em 1998, graças à iniciativa do geólogo Joaquim das Virgens Neto e do apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Porém, com o avanço das técnicas de documentação gráfica dos mapas nos últimos anos, decidiu-se realizar um novo levantamento topográfico, optando-se pela produção de um desenho mais detalhado. A escolha mostrou-se muito acertada, conforme percebeu a equipe logo de início. A Gruta Rainha é uma das cavernas mais belas do Rio Grande do Norte, havendo espalhada por toda ela uma grande profusão de espeleotemas, que são as formações típicas das cavernas. Os espaços chamam a atenção pela grande quantidade de estalactites e estalagmites, havendo, ainda, muitos escorrimentos e cortinas. O objetivo total do grupo de mapeamento, porém, não foi atingido, posto que a caverna não foi completamente mapeada. À semelhança do que houve em 1998, neste mapa de 2009, o avanço da topografia foi contido pela existência de uma bolha de gás não identificado que há nas cotas mais baixas dos últimos salões da caverna. A contaminação da atmosfera por tal gás é facilmente perceptível pela forma como a iluminação de carbureto se comporta nos locais onde há baixa taxa de oxigênio. As chamas dos capacetes apresentam anomalias e, mais adiante, simplesmente se apagam. Os exploradores, de igual modo, apresentam cansaço, dificuldade na respiração, tonturas e ardor na boca e garganta. E todos esses sintomas somente aumentam, quando se avança para os poços que há no final da gruta. Por tudo isso, nos mesmos pontos de 1998, o mapa de 2009 estacionou devido à insalubridade do ambiente, continuando os níveis mais profundos da Rainha como locais virgens, guardando segredos que, talvez, jamais sejam descobertos.
Na Dolina do Xavier outras dificuldades, mais amenas, também impuseram barreiras, de vários modos, pois, conforme comentado, o local estava repleto de abelhas. Porém, munidos de roupas de apicultores, os caverneiros desceram pela enorme entrada da grande dolina e exploraram os limites mais extremos daquele lugar. As colméias não foram problema. Protegidos no interior dos trajes, só o calor e o volume das roupas atrapalhavam. Pode-se dizer que, aos olhos de um fanático por cavernas, o Xavier é um lugar de beleza singular. Em suas profundezas há um pequeno bosque, completamente sombreado, de fácil avanço, com o chão repleto de folhas secas. A copa das árvores atinge cerca de nove metros de altura e fica a meio paredão da dolina. Há estalactites e lustres enormes, dependurados sobre essa mata, como se fossem os dentes de uma grande boca, que abocanha um céu azul. A visão do fundo da Dolina do Xavier é simplesmente linda, um prêmio por todos os obstáculos enfrentados para se atingir um lugar tão inacessível. E quanto aos que duvidavam que ali houvesse uma caverna (mas tão-somente uma simples dolina), fica a negação de que, mesmo não sendo uma grande caverna, o Xavier tem um dos maiores potenciais ao espeleoturismo no Rio Grande Norte e apresenta relevante desenvolvimento pela profusão de espeleotemas e destacada fauna, especialmente, uma colônia de morcegos.
Dentre tantas imagens surreais, a última etapa de 2009 em Felipe Guerra rendeu a todos gratas surpresas e importantes conquistas, que somente confirmam a grandeza do patrimônio natural daquela região.
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